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O turismo e a cultura: uma relação intrínseca

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Já que no segundo artigo, abordamos a relação entre cultura e gastronomia, neste artigo gostaria de abordar a relação destes termos com o turismo (sendo este também baseado no capítulo intitulado “Turismo e gastronomia: a valorização do patrimônio Gastronômico de Campos do Jordão”, elaborado por mim e pela Valéria Fedrizzi no livro “Turismo, Gastronomia e Desenvolvimento na região das Missões – Brasil”, organizado por Rut Friedrich Marquetto; Magna Liane Bergmann e Vanusa Andrea Casarin, que pode ser baixado gratuitamente na internet).

A atividade turística tornou-se parte importante para muitas pessoas, aumentando a sua representatividade no cenário econômico global, como também no seu processo de desenvolvimento. Porém, estudos começaram a destacar a necessidade de se compreender a atuação dos diversos atores envolvidos nessa atividade, já que a mesma envolve, além do trade turístico, também a população local, fornecedores, educadores, historiadores, entre outros.

Enfatizando-se a população local, pode-se utilizar-se dos alimentos e do seu modo de fazer para atrair visitantes ao local, valorizando-se a localidade e ajudando na manutenção da cultura. Gimenes (2010) destaca que a competitividade entre os destinos turísticos também contribui para um novo olhar sobre a gastronomia, buscando-se uma diferenciação frente aos concorrentes. No turismo, a gastronomia pode ocupar o patamar de um atrativo turístico principal ou complementar, sendo que pode constituir uma experiência turística, na medida em que oferece uma interação com o meio visitado (GIMENES, 2013).

Segundo Matias e Mascarenhas (2008), a transformação da culinária local em gastronomia típica se dá gradativamente, pois passa pela utilização do prato, o qual pode demorar gerações para se fixar na dieta da população, sendo que somente então se propaga e é divulgado aos indivíduos de outros grupos culturais como algo que se identifica aquela comunidade. Diante dessa diversidade, Camargo (2004) enfatiza que, para ser criado um padrão gastronômico, a culinária local deve ser consolidada preservando os ritos, a tradição e a manutenção dos hábitos através do cotidiano e das relações interpessoais, conceito também trabalhado por Gimenes (2013), que define que o elemento típico deve englobar além de ingredientes, técnicas culinárias e receitas, uma delimitação geográfica, além de características passíveis de serem reconhecidas por outras pessoas, passando a ser reproduzidos com finalidade simbólica.

A gastronomia como coadjuvante na oferta turística dos destinos, valoriza a patrimonialização da alimentação, que passa, a apoiar a gastronomia em sua concepção, quanto patrimônio imaterial. Segundo Gimenes (2013, p. 51), para a autora, “[…] a patrimonialização contemporânea da alimentação inscreve-se em um movimento que faz a noção de patrimônio passar da esfera privada para a pública e do econômico para o cultural […]”.

Apesar da importância dada à gastronomia atualmente, entendendo-a como um importante e interessante recurso turístico, os estudos ainda são poucos. O primeiro estudo formal, sobre gastronomia data de 1825, escrito por Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826), com o título, La Physiologie du gout, posteriormente traduzido para o inglês como o título, The Physiology of Taste. (KIVELA; CROTTS, 2006, p. 355), fornecendo as bases preliminares para que a gastronomia fosse considerada um campo de conhecimento acumulativo, permeada por relatos em todas as civilizações clássicas. Apesar disso, seu relacionamento com outras ciências e campos de estudo, como por exemplo, o turismo e a hospitalidade, ainda demanda reflexão e estudos.

Concentrando-se, neste momento, na relação turismo e gastronomia, Wolf (2002) destaca que as primeiras definições desta relação foram orientadas para a relação das experiências de viajar, com finalidade de desfrutar da comida e da bebida. Contudo, o conceito do turismo abarca, também, a compreensão deste ser um fenômeno social, cultural e espacial que, por seu tríplice aspecto em relação aos seus espaços – possui áreas de dispersão ou emissoras; áreas de deslocamento; e de atração ou receptoras (RODRIGUES, 1999), gera uma demanda por diversos bens e serviços nas localidades onde se desenvolve, sendo que é neste contexto, do fenômeno social e cultural, que se permeia a gastronomia local, da região visitada e seu entorno.

Diante desta mudança, a gastronomia passa a ser um produto turístico e como tal, sujeito as leis do mercado turístico, onde se evidencia o crescente volume de oferta, e em alguns casos, a escassez de sua demanda, porém o turismo gastronômico é considerado um ‘novo turismo’, valorizando o patrimônio gastronômico das cidades visitadas. A gastronomia, na atividade turística transcende apenas e somente a ingestão de alimento, propiciando no caso, do turismo gastronômico, o contato com o outro. Assim, destaca Gândara (2010, 184) “[…] gastronomia regional torna-se um diferencial, que representa a identidade local, ligando o turismo gastronômico ao prazer e a sensação de saciedade adquirida por meio da viagem e da comida”.

Assim, o turismo gastronômico pode ser definido como as ações de viagem, motivadas pelo interesse em experimentar novos sabores, através da alimentação ofertada no núcleo receptor, e destaca-se o consumo da gastronomia regional. Nesse sentido, “a forte relação entre comida e identidade, não é de se estranhar que a comida torna-se um importante agente no mercado do turismo promocional[1]”. (RICHARDS, 2003, p. 5). Faz-se necessário ressaltar, entretanto, que ao analisar o segmento turístico, focando-se no turismo gastronômico, dois fatores preponderantes devem ser realçados: os visitantes que realizam esse tipo de turismo, motivados, principalmente pelo apreço ao contato com a cultura local, e os visitantes que demandam a ‘boa vida’, focando o prazer e luxo. (GÂNDARA, 2010, p. 187).

Particularmente, eu gosto de conhecer a cultura local, pois isso me faz refletir inclusive sobre minhas ações diárias. Quando viajamos e conhecemos a cultura local, ampliamos nossa visão e passamos a desejar novas experiências. Não costumo realizar turismo gastronômico unicamente, mas a gastronomia faz parte essencial de qualquer viagem que realizo. Recentemente, por exemplo, pude conhecer muitos frutos do cerrado que só conhecia por nome ou por imagens e posso afirmar que a experiência foi marcante, mas esses detalhes ficam para uma futura coluna.

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REFERÊNCIAS

CAMARGO, L. O. L. Os domínios da hospitalidade. In:  DENCKER, A.F.M. et al. Hospitalidade: cenários e oportunidades. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003, p. 61-71.

Hospitalidade. São Paulo: Aleph, 2004.

GÂNDARA, J.M.G.  Reflexões sobre o turismo gastronômico na perspectiva da sociedade dos sonhos. In: PANOSSO NETTO, A.; ANSARAH, M.G.R. (ed.). Segmentação do Mercado Turístico: estudos, produtos e perspectivas. Barueri: Manole, 2009. p. 179-196.

GIMENES, M.H.S.G. Sentidos, sabores e cultura: a gastronomia como experiência sensorial e turística. IN: PANOSSO NETTO, A.; GAETA, C. Turismo de experiência. São Paulo: SENAC, 2010. p.192-202.

Cozinhando a tradição: festa, cultura, história e turismo no litoral paranaense. Curitiba: Editora UFPR, 2013.

LÉVI-STRAUSS, C. The origin of table manners: Mythologiques. Chicago: University of Chicago Press, 1990.

MATIAS, L.F.; MASCARENHAS, R.G.T. Culinária tropeira e suas potencialidades no turismo dos Campos Gerais do Paraná: uma análise

dos municípios de Castro, Lapa e Tibagi. CULTUR – Revista de Cultura e Turismo, Ano 2, n. 02, jul. 2008. Disponível em: https://www.uesc.br/revistas/culturaeturismo. Acesso em: 20 mai. 2010.

RICHARDS, Greg. Gastronomy: an essencial ingrediente in tourism productions and consumption. In: HJALAGER, Anne-Mette; RICHARDS, Greg (edited). Tourism and Gastronomy. London: Routledge, 2003. p. 3-21.

RODRIGUES, A.B.. Turismo e espaço: rumo a um conhecimento transdisciplinar. São Paulo: Hucitec, 1999.

WOLF, E. Culinary tourism: A tasty economic proposition. Retrieved July 12, 2002. Disponível em: https://www.culinarytourism.org. Acesso em: 28 nov. 2016.

[1]“[…] the strong relationship between food and identity, it is not surprising that food becomes an important place market in tourism promotional” (tradução livre).


Bruna Mendes

BRUNA MENDES

Mestre em Hospitalidade, bacharel em Turismo e Licenciada em Pedagogia, mas acima de tudo, apaixonada pela cultura, turismo e gastronomia.

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