Cupcakes = Sociedade, Gastronomia e Comportamento Humano

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Não há adjetivos positivos ou negativos para descrever tal situação que apresentarei agora. Provavelmente, o julgo da mensagem se diversificará com a receptividade e identificação do leitor(a). Digo que é um fato muito mais analítico e de partilha de uma vivência pessoal profissional do que um relato exato derivado de um especialista. Ao fato:

Cupcakes. Mini bolos de massa leve e aerada com recheios ou não, cobertos e decorados com cremes, pastas e/ou confeitos. Impressionantemente, a ascensão desta preparação culinária oriunda de Nova York perante a aceitação do público adulto e a representatividade em aspectos econômicos e culturais que se solidificou de forma tão intensa por enquanto no estado de São Paulo demonstra fatos, no mínimo, curiosos e instigantes de certa confusão. Por exemplo:

– Porque uma preparação culinária com características infantis possui grande parte da venda destinada à adultos?
– Porque a preparação que geralmente contém alto teor de açúcar é tão bem aceita atualmente com uma população razoavelmente conscientizada dos males do consumo em excesso da mesma?
– O apelo das cores diferenciadas e vibrantes conjuntamente com os formatos decorativos remete a uma simples forma de ser ou atende as expectativas de um público?
– As possibilidade de diversificação de recheios, massas e coberturas influi positivamente para o cliente já que ele pode de alguma forma se identificar com a preparação. Como? Porque?
– Cupcake é uma receita de porção individual. Porque isto atualmente se torna uma poderosa ferramenta de vendas? O cliente e o consumidor encaram de que forma esta proposta de possuir um doce específico com características inerentes a expectativas de consumo, lembranças, preços, memórias e satisfação?

Surgem a partir destas poucas perguntas algumas observações e reflexões.

A compra de um doce com características infantis por adultos pode ser um indicador da carência destes adultos (que representa os adultos da sociedade como um todo) em vivenciar situações que remetem a fase inicial da vida. Já que em tempos atuais quase impossível é uma relativa periodicidade de viver momentos de descontração, ingenuidade, cumplicidade, transparência e veracidade.

Há o almejar por uma convivência em relações interpessoais com família, amigos e conhecidos com vibrantes e diferentes intensidades de emoções e sentimentos, contudo com direito de mais perdões e constante alegria em torno da vida, contudo empobrecido de esperanças. Situações representadas pelas cores e decorações.

“Um bolinho macio com a massa que eu quero, com o recheio que eu gosto, com a cobertura que eu amo e com as cores que eu me identifico”. Soa bem tal descrição quando estamos à frente da vitrine para decidir qual cupcake escolher. Circunstancia que refuta a ideia do quão difícil é ter e ser aquilo que realmente me reflete. Posso comer uma sobremesa como a mim. Pelo menos isto!

Não, somente, possuir uma preparação culinária nas características que se identificam comigo, como também tê-la todinha só para mim é algo quase épico. Nada de dividir, compartilhar, sociabilizar, globalizar. Meu e só meu! Redes sociais que nada, repartir os gostos sim, mas não o que me dá o gosto. O gozo. Já que os 900 amigos virtuais não correspondem aos inexistentes amigos reais.

Neste novo cenário de mundo e de vida, alinhar as percepções para filtrarmos com discernimento o que nos faz mal do que pode nos fazer bem é quase uma situação de sobrevivência e qualidade de vida. A gastronomia, as artes e a música são ‘ferramentas’ de desvende deste alucinado e maluco jeito de ordenar e conduzir o estilo de vida das pessoas. Assim, pode-se através de reflexões mínimas de consumo e formas de expressões detectarmos comportamentos que nos remetem a parcela doente da sociedade. Afinal, nada como um bolo macio… cremoso… recheado… confeitado e decorado para transcender a visão torpe e dúbia da forma como aceitável é tido o modelo de como sermos adultos. E, assim, injetar-nos uma dose momentaneamente prazerosa de nostalgia.

Necessitamos de mais festas, mais doces, menos cobranças, mais vivências conosco e com a sociedade, mais maturidade, mais diversão, mais erros, menos julgamentos, mais produção intelectual, menos consumo, mais felicidade, menos dinheiro, menos conflitos internos e mais PAZ. Viva o cupcake!


Davi Furigo de Melo

DAVI FURIGO DE MELO

Chef e professor. Graduado em Gastronomia no Senac Águas de São Pedro. Proprietário da Paladares, em Campinas/SP.

Cupcakes = Sociedade, Gastronomia e Comportamento Humano
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