Melting pot ou multiculturalismo? Há um correto?

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Durante as leituras para se entender o multiculturalismo deparei-me com um termo reconhecido como melting pot, comum nas publicações de gastronomia. Portanto, no artigo de hoje optei por destacar as diferenças entre estes termos para que possamos usá-los de forma correta, aprofundando o conhecimento acerca da gastronomia.

O termo “melting pot” surgiu nos Estados Unidos no século 18, num texto de um fazendeiro americano no qual ele desenvolve a ideia de formação de um novo tipo de homem, uma “nova raça”, resultante da fusão de indivíduos de várias nações. Esta ideia foi ainda amplamente popularizada através de uma peça teatral denominada “The melting pot“, de Israel Zangwill, de 1909, na qual a personagem principal acredita que as divisões de nacionalidade e de etnicidade irão desaparecer na terra prometida da América (ZARTH, 2010).

A assimilação foi outro termo criado em solo americano, encontrando no Brasil grande receptividade ao conceito de incorporação e união de diferentes culturas. Contudo, Truzzi (2012) explica que nem sempre este conceito foi usado da mesma maneira, podendo ser identificadas três fases nas quais o conceito foi empregue de formas distintas: em primeiro lugar, o uso que dele fizeram intelectuais preocupados em discutir, promover e alguns deles em preservar a formação nacional do povo brasileiro (resultando na campanha de nacionalização). Em segundo lugar, o uso propriamente acadêmico e estritamente associado a uma interpretação cultural do termo a partir dos anos quarenta. Por fim, o período no qual a utilização do termo assimilação caiu em descrédito nos meios acadêmicos, concomitantemente à valorização das identidades étnicas de diferentes grupos de imigrantes, período este influenciado pela emergência de uma perspectiva multiculturalista.

Assim, no Brasil sempre foi muito perceptível o uso do termo melting pot e do termo assimilação como uma busca de um país que abraçou a diversidade, convivendo com as diferenças para construir um novo espaço. Entretanto, assim como a já comentada Fábula das Três raças, Zarth (2010) expõe que o termo melting pot também representa uma fábula, já que ao analisar publicações no período da década de 1930, foi perceptível identificar os indícios de superioridade que tanto eram negados na fala política. Em relação aos afrodescentes era comum serem usados termos de deboche e desrespeito, enquanto aos povos indígenas apresentava-se uma idealização, seguindo os padrões do romantismo da literatura. A autora ainda destaca que a linguagem utilizada nas matérias reafirma a ideia dominante de superioridade entre os povos, contudo, dando os primeiros passos no reconhecimento da diversidade como fator positivo. Apesar deste passo, ainda era perceptível nos textos o destaque quanto à hegemonia europeia, já que os termos mais comuns ligados aos imigrantes europeus eram trabalho e progresso, como contraponto à indolência e atraso, valores estes atribuídos aos indígenas, negros e mestiços. A fábula do melting pot aparece também em relação aos mestiços, descentes de portugueses, indígenas e/ou africanos, que são denominados de caboclos ou ameríndios.

Concentrando-se no processo de imigração, Adas (2004) explica que este processo pode ser dividido em três períodos: de 1808 a 1850; de 1850 a 1930 e de 1930 até os dias atuais. Apesar dos primeiros imigrantes terem sido portugueses, em torno de 1530, com o objetivo de cultivar a cana-de-açúcar; foi apenas a partir da abolição da escravidão que um cenário foi delineado para o incentivo da chegada de imigrantes. Entre 1808 a 1850, precisávamos de imigrantes para povoar as terras, aproveitando-se de um decreto que permitia o estrangeiro ser dono de terras no Brasil (apesar disto, o fluxo foi pequeno, pois os estrangeiros tinham medo de se tornaram escravos no país). De qualquer forma, considera-se como o marco inicial da imigração o ano de 1824, impulsionada pelas ações de incentivo para atrair imigrantes, criando pequenas colônias espalhadas pelo Brasil, principalmente de alemães, prussianos, suíços e italianos. Estas colônias, seja por compartilharem culturas ancestrais, seja por compartilharem as dificuldades de se viver em novas terras, acabaram criando identidades próprias, estas hoje valorizadas como aspectos diferenciais de determinadas regiões. Contudo, esta identidade étnica só se tornou possível, quando os municípios começaram a ser criados, como explica Seyferth (2000), em função do desenvolvimento econômico e urbano, assim como o aumento populacional impulsionada pela constância dos assentamentos de novos imigrantes, aliado ao nascimento das primeiras gerações em solo brasileiro.

Entre 1850 a 1930, a cafeicultura impulsionou a chegada de imigrantes, caracterizando o segundo período, sendo que esta agricultura, associada a falta de mão-de-obra, possibilitou a abertura do país para receber pessoas de outros países, sendo que estas buscavam melhores condições de vida e trabalho. Destacam-se os suíços e os alemães, chegando à região sul do país, trabalhando em atividades ligadas à agricultura e pecuária. Já os italianos ocuparam principalmente a região de São Paulo, trabalhando com o café, nos comércios ou até em indústrias, seguido pelos japoneses, que começaram a chegar em torno de 1908*.

Posteriormente, diversas outras nacionalidades começaram a ocupar espaços pelo Brasil inteiro, gerando um complexo e multifacetado processo de miscigenação no Brasil, representando um entrecruzamento muito além das raças branca, negra e índia. Trata-se de um complexo processo de constituição de um psiquismo onde o padrão, tal como foi elaborado na Europa, é inexistente e onde os limites narcísicos são pouco claros, borrados, dificultando a discriminação entre eu e outro e permitindo a justaposição de partes (BERLINCK; KOLTAI; CANONGIA, 2010).

A partir de 1930, fica claro que a convivência não era tão pacifica como a fábula destacava, comunicando a todos que a diversidade reinava em solo brasileiro. Seyferth (1997) explica que a presença de grupos étnicos formados no curso do processo imigratório, concentrados de forma expressiva nos quatro estados mais ao sul do país, suscitou diversas manifestações de xenofobia no âmbito dos discursos nacionalistas mais radicais, mesmo antes de 1889.  Em fins de 1930, Patarra e Fernandes (2011) explicam que começaram a ser publicadas as primeiras medidas restritivas às entradas de imigrantes, reflexo da crise mundial de 1929, sendo que com a redução progressiva dos fluxos migratórios, houve um aumento da demanda por força de trabalho, sendo suprida pela migração pelo país.

Entre 1937 e 1945 uma parcela significativa da população brasileira sofreu interferências na vida cotidiana produzidas por uma “campanha de nacionalização” que visava ao caldeamento de todos os alienígenas em nome da unidade nacional (SEYFERTH, 1997, p.2).

Com o passar dos anos, este isolamento começa a diminuir, em função da imposição de um melting pot de europeus, a partir da criação de colônias mistas. Todavia, Seyferth (2000) explica que para os propósitos de formação da nação, os imigrantes e seus descendentes deviam ser assimilados, ou melhor, caldeados num abrasileiramento de concepção cultural e racial; mas a colonização, tal como foi implementada no sul, deixou, a princípio, uma população estrangeira numericamente expressiva afastada da sociedade nacional.

Posteriormente, o fluxo migratório seguiu movimentos diversos, sendo que a década de 1950 se destaca por ter sido o período que mais recebeu imigrantes, pós 1930. Esta situação só se tornou possível em função do processo de industrialização impulsionado pelo governo de Juscelino Kubitscheck (1956-1960). Porém, este fluxo volta a cair no período da ditadura, pois o incentivo era para atrair mão-de-obra qualificada, o que não ocorre em grande número.

A partir desta breve descrição sobre o processo migratório, pode-se perceber que a diferenciação que submetia os estados nacionais europeus desde o século XV, afetou, de maneira indelével, o processo colonizador brasileiro. Tratava-se de se estabelecer sociedades bem delimitadas e bem caracterizadas quer por precisas definições territoriais, quer por características sociais “puras” em oposição a características “impuras” ou miscigenadas e exóticas que eram remetidas para as colônias. Berlinck; Koltai e Canongia (2010) explicam que é assim que a sociedade colonial brasileira se funda: como marco do desejo europeu de constituição de unidades nacionais com clara e precisa identidade. No Brasil, por sua vez, foi se formando uma outra sociedade e uma outra cultura, com o demônio e todos os santos à solta, mas, também, uma outra singularidade psíquica, como negativo do projeto de “pureza” e de “civilização” exatamente para assegurar o sonho europeu de “pureza” e de “civilização”.

A partir da década de 80, o Brasil inaugura uma nova fase de deslocamentos, porém inverso, já que o país começa a ser reconhecido como expulsor da população, já que um crescente número de brasileiros passa a residir no exterior (PATARRA; FERNANDES, 2011). No cenário recente das migrações interacionais, o Brasil recebe ainda outras nacionalidades, destacam os autores, como os da Bolívia, da Guiana Francesa, do Peru, entre outros, impulsionando ainda mais o caldeirão de influências brasileiro.

Destaca-se que, na teoria, o conceito de melting pot seria uma forma de acolhimento das outras culturas pela cultura dominante, sendo que cada cultura contribuiria com algo, se misturando para formar uma nova unidade. Entretanto, isto não foi colocado em prática, pois como exposto anteriormente, o aspecto de superioridade ainda era perceptível no cotidiano brasileiro. Assim, a partir dos avanços das discussões, o termo começa a ser questionado e não mais utilizado, surgindo como preferência o termo multiculturalismo. Para Gonçalves e Silva (2001: 11), o multiculturalismo “é o jogo das diferenças, cujas regras são definidas nas lutas sociais por atores que, por uma razão ou outra, experimentam o gosto amargo da discriminação e do preconceito no interior das sociedades em que vivem” (apud ALMEIDA, 2006).

O multiculturalismo nasce no embate de grupos, no interior de sociedades cujos processos históricos foram marcados pela presença e confronto de povos culturalmente diferentes. Esses povos, submetidos a um tipo de poder centralizado, tiveram de viver a contingência de juntos construírem uma nação moderna (GONÇALVES; LIMA, 2003). O multiculturalismo é, assim, considerado positivo quando permite à sociedade refletir sua diversidade em todos os níveis e quando propicia a igualdade de oportunidades para todos os grupos étnicos e culturais que a compõem (LIMA, 1998).

Diferentemente do conceito de melting pot, segundo o qual a cultura dominante assimilaria as demais culturas, o multiculturalismo procura a coexistência de várias culturas, compartilhando o mesmo espaço e importância. A partir dele, podemos conviver e construir uma nova identidade, acarretando em uma nova expressão cultural.

Em virtude da predominância do modelo ideológico-racial, como descrito anteriormente, que bloqueia a manutenção de identidades parciais étnicas ou raciais em favor de uma única identidade – a brasileira -, há dificuldade de se fazer vingar, no Brasil, práticas pautadas pelo multiculturalismo, como explica Lima (1998). A autora ainda complementa que toda relutância em aceitar essas iniciativas de reconhecimento oficial da variedade e diversidade, as quais estão englobadas no conceito de multiculturalismo, podem ser entendidas à luz dessa ideologia racial explicitada acima, como não reconhecimento oficial às minorias étnicas, a não ser como momento ou estágio temporário de um processo em direção à anulação das diferenças em favor de uma única cultura: a brasileira, sem adjetivações ou particularismos. (LIMA, 1998).

De qualquer maneira, Canen e Oliveira (2002), definem que o multiculturalismo compreende que a sociedade é constituída de identidades plurais, baseando-se na diversidade de raças, gênero, classe social, padrões culturais e linguísticos, além de outros marcadores identitários. Como marcadores identitários, diversos itens poderiam ser analisados, sendo que o foco está na gastronomia, como já explicitado anteriormente. Werneck (2008) explica que o multiculturalismo é um movimento social que leva ao reconhecimento da diversidade das culturas e à investigação sobre as questões da identidade, dos direitos humanos, da exigência da tolerância entre os povos. Contudo, a autora ressalta que as manifestações culturais não são neutras, mas sim estão carregadas de informações aceitas ou condenadas pela ciência, que traduzem conhecimento, erros ou noções distorcidas. Também, quanto aos valores, as produções da cultura não são imparciais, pois expressam valores, o que vale para o homem, o que o aprimora e aperfeiçoa ou o que o avilta e degrada.

É neste sentido que surge a crítica em relação ao multiculturalismo, pois ao se unir as diferentes culturas em um mesmo degrau de igualdade, se perderia a essência, o que na prática representaria o domínio de uma cultura sob a outra. Para se evitar esta situação e considerando, de acordo com a autora supracitada, de que a cultura pode ser entendida como uma fonte de instrução, de aquisição de conhecimento e, também, de educação, já que propõe modelos e escalas de valor, deve-se valorizar a cultura local e seus aspectos identitários.

Como aspecto identitário entende-se todo elemento que caracteriza e individualiza uma cultura, seja ela local ou nacional, devendo ser valorizado e preservado, principalmente diante de um mundo globalizado. Porém, deve-se buscar a essência de tais elementos, evitando a sua massificação e falseamento dos mesmos. Assim, considerando-se o processo de ocupação do Brasil, diversos elementos identitários podem ser identificados, seja pela dança, pelo modo de falar, pelas gírias, mas principalmente pela alimentação, sendo este o foco da análise. Claro que não se ignora os demais itens, mas entende-se que a alimentação está envolta nos mais diversos significados, desde o  âmbito cultural até as experiências pessoais.

Nas práticas alimentares, que vão dos procedimentos relacionados à preparação do alimento ao seu consumo propriamente dito, a subjetividade veiculada inclui a identidade cultural, a condição social, a religião, a memória familiar, a época, que perpassam por esta experiência diária (GARCIA, 1994). Assim, o alimento constitui uma categoria histórica, pois os padrões de permanência e mudanças dos hábitos e práticas alimentares têm referências na própria dinâmica social (SANTOS, 2005). Segundo Sonati; Vilarta e Silva (2013) cada região desenvolveu uma cultura alimentar peculiar e característica; sendo estas um mecanismo de análise e estudo, inclusive para a compreensão do processo evolutivo de uma sociedade.

É neste processo de análise da cultura alimentar como processo explicativo das relações sociais que o multiculturalismo pode ser aplicado, procurando-se enaltecer e evidenciar as diferentes práticas alimentares, sem ignorar as influências ou considerar aspectos de superioridade. Garcia (1994) explica que a tradução dessa diversidade no modo de comer e na comida é um tema vasto para compreendermos melhor o modo de vida citadino, registrando em parte a história da colonização e as diferentes influências culturais. Quando se fala em saborear um prato de comida, envolve muito mais do que simplesmente “matar a fome”, pois uma imersão na cultura alimentar de determinado local nos faz muitas vezes viajar até ele sem sequer sair de nosso próprio país (SONATI; VILARTA; SILVA, 2013).

Ao observar tal universalização, nota-se que algumas preparações que se fazem presente e são bastante difundidas em nossa cultura, não são oriundas das regiões brasileiras, mas sim incorporadas à nossa cultura por meio de imigrantes e influências externas globalizadas. Neste campo, a miscigenação não é mais vista como algo negativo, mas sim como algo enriquecedor, devendo, assim, ser valorizado, estando presente em todas as culinárias mundiais. Entender este processo é o início do caminho para entender a nossa gastronomia!

*PATARRA, N.L.; FERNANDES, D. Brasil: país de imigração? IN: Revista Internacional em Língua Portuguesa: migrações. 2011.

Material alterado da publicação de MENDES, B.C; PERROTA, R.G.O Multiculturalismo na Gastronomia Brasileira: a influência dos imigrantes na alimentação”. Saarbrucken: Novas edicações Acadêmicas, 2016.

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REFERÊNCIAS

ADAS, M. Panorama geográfico brasileiro. São Paulo: Moderna, 2004.

ALMEIDA, C.M.G. O multiculturalismo nas políticas públicas para a cultura, artes e música: a educação musical intercultural. XVI Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música. Brasília, 2006.

BERLINCK, M.T. ; KOLTAI, C.; CANONGIA, A.I. Esquizofrenia e miscigenação. Revista Latinoamricana de psicopatia fundamental. IV. N.4, 11-29. 2010.

CANEN, A.; OLIVEIRA, A.M.A. Multiculturalismo e currículo em ação: um estudo de caso. Revista Brasileira de Educação. Set-dez. 2002.

GONÇALVES, L.A.O.; SILVA, P.B.G. Multiculturalismo e educação: do protesto de rua a propostas e políticas. Educação e Pesquisa. São Paulo, v.29, n.1, p.109-123, jan-jun. 2003.

LIMA, S.M.C. Multiculturalismo. Comunicação & Educação. São Paulo, 15-18set. 1998.

SEYFERTH, G. A assimilação dos imigrantes como questão nacional. Mana. V.3, n.1, Rio de Janeiro, 1997.

SEYFERTH, G. as identidades dos imigrantes e o melting pot nacional. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 6, n.14, p.143-176, nov. 2000.

SOUSA, R.O. oliveira Viana e as questões da miscigenação no Brasil: a desconstrução dos discursos e ideais que negavam a contribuição do negro e do indígena em nosso país.       VI Jornada Internacional de Políticas Públicas.  20-23 ago. 2013. UFMA – São Luís do Maranhão.

TRUZZI, O. Assimilação ressignificada: novas interpretações de um velho conceito. Dados – revista de ciências sociais. Rio de Janeiro, v.55, n.2, 2012. P. 517-533.

ZARTH, P. O retorno das etnias no ensino de História: do melting pot ao multiculturalismo na imprensa de Ijuí. IN: BARROSO, V.L.M; PEREIRA, N.M.; BERGAMASCHI, M.A.; GEDOZ, S.T.; PADRÓS, E.S. Ensino de história: desafios contemporâneos. Porto Alegre: EST; EXCLAMAÇÃO; ANPUH-RS. 2010. pp 117 133.


Bruna Mendes

BRUNA MENDES

Mestre em Hospitalidade, bacharel em Turismo e Licenciada em Pedagogia, mas acima de tudo, apaixonada pela cultura, turismo e gastronomia.

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