O multiculturalismo na gastronomia

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Neste momento gostaria de abordar o conceito de multiculturalismo na gastronomia e sua representatividade. Para começar, afirmo que entender o multiculturalismo na gastronomia é a base para entender a nossa identidade cultural e defendê-la e valorizá-la. Para quem quiser ler um pouco mais sobre o assunto, poderá ver o livro publicado por mim e minha colega Regina Coeli Perrota, com o nome “O Multiculturalismo na Gastronomia Brasileira: a influência dos imigrantes na alimentação”. Porém, diante do imenso conteúdo acerca desta temática, iniciarei a exposição explicando um pouco sobre como ocorreu a formação do Brasil (pelo conceito do multiculturalismo), para um próximo artigo me concentrar nas contribuições indígenas, africanas e portuguesas até atingir a influência dos imigrantes.

Desde o final do século XIX o Brasil vêm sendo descrito como um país mestiço, miscigenado, híbrido. Contudo, as primeiras descrições sempre carregaram um conceito negativo, extremista e singular, como se, a partir das misturas de raças, tivéssemos um resultado deficiente, eliminando-se todas as características positivas do negro, do branco e do índio, assim como dos imigrantes. Neste período, a miscigenação se transformou em um tema polêmico, principalmente entre as elites locais, sendo considerada um processo de degeneração social, resquício ainda perceptivo nos dias atuais.

Entretanto, é devido à miscigenação no Brasil que é possível dizer que nosso país possui uma identidade cultural muito variada, sendo importante entender a sua conceituação e formação para a busca de um fortalecimento cultural e valorização, com consequente preservação. Assim, Melo (2016) define miscigenação como o cruzamento de raças humanas diferentes, processo também conhecido como mestiçagem ou caldeamento, sendo que aqui será tratado como um diferencial cultural e como tal, deve ser valorizado e preservado.

Destaca-se que a formação étnica do nosso colonizador português foi uma decorrência de longos anos de aculturação e assimilação. Desde os tempos mais primitivos do continente europeu, fizeram parte da sua história: os celtas e os íberos, tendo, também, em sua estrutura civilizatória, os povos mediterrâneo-camitas, originários da África do Norte, além das invasões romanas, que fizeram entrar em território português povos diversos: sírios, armenóides, itálicos. A influência judia fixou-se, impondo aspectos políticos e sociais na difusão de sua cultura no território português. Mesmo assim, Espanha e Portugal, constituindo-se em Estados nacionais, buscavam sua identidade “pura”, ou seja, um padrão étnico, linguístico e cultural que lhes proporcionasse a fantasia imaginária de uma integração identitária nacional.

Porém, apesar do objetivo de uma integração nacional em solo português, isto de nada se assemelhou ao processo de ocupação do Brasil, uma colônia de exploração, a qual deveria enriquecer o país de origem. Primeiramente, buscou-se forçar os índios a um ritmo de trabalho e de cultura, mas diante do fracasso, optou por trazer os africanos, utilizando-se de um processo já comum ao território africano: a escravidão. Neste ponto, a miscigenação já não teria como ser evitada.

Assim como aconteceu em Portugal, cuja formação se dá pela mistura de diversas influências, o africano também recebeu a influência de diversas culturas. O processo de expansão ultramarina faz com que o português chegue ao continente africano no século XV, exercendo junto com outros países vizinhos, um amalgamento de culturas. Essas influências, acrescida da diversidade étnica africana, tiveram maior peso na formação do povo brasileiro, pois o patrimônio cultural do africano negro trouxe peculiaridades comuns e valores diversos, contribuindo para que a transmissão da cultura africana não fosse apenas por um, dois ou três elementos, mas, de inúmeras nações com culturas variadas e impregnadas pela influência europeia e islâmica. Destaca-se, todavia, que as influências iniciais não foram a partir de produtos escolhidos pelos africanos, mas sim aqueles produtos que os portugueses escolheram trazer à solo brasileiro, sofrendo adaptações ao novo espaço ocupado.

Diante destas misturas de influências, não se podia mais negar que o Brasil se constituía por uma mistura de raças e culturas, iniciando-se uma discussão acerca da miscigenação não mais pela vertente dos estudos racialistas, como explica Pinho (2004), mas sim pela vertente dos estudos etnológicos, fato presente nos anos 30-40, permanecendo como aspecto principal para a compreensão das relações raciais por meio da essencialização da miscigenação, fiel da balança da unidade cultural nacional. Nesse caso, a “cultura” é o sustentáculo de um arranjo político e econômico, que se reproduz desigualmente, ao mesmo tempo em que ideologiza as diferenças sociais como diferenças naturais-culturais (PINHO, 2004).

No Brasil, então, dado o vasto território, a escassez de mão-de-obra para a realização do projeto econômico extrativo e a própria política portuguesa de transformar a colônia num depósito de indesejáveis no reino, não mais se podia falar em pureza, sendo o Brasil retratado como o espaço no qual eram depositados os restos indesejados da própria Europa. Este cenário, aliado ao propagado barbarismo africano, conduziu a uma formação exótica do país, contrária a constituição da pureza nos Estados nacionais na Europa (BERLINCK; KOLTAI; CANONGIA, 2010). Souza (2013) expõe que esta mistura já era evidente no período colonial, momento em que nossa história se baseava no campo, resultando na consolidação de latifúndios. Posteriormente, já no período republicano, começa-se a se observar um movimento nas estruturas sociais e demográficas, surgindo novos tipos de brasileiros, percebendo-se uma decadência da aristocracia.

Assim, reforça-se que no Brasil, a formação acontece de outra maneira à idealizada por Portugal, que procurava pela sua pureza e identidade. Aqui prevalece a ação colonizadora que, na busca por um lucro almejado, procura incorporar novos povos à uma cultura em formação. A “identidade nacional” brasileira, ao contrário da europeia, nunca se realiza a não ser como um mistério levando a ricos estudos de nossa gente e de nossa cultura, afirmam os autores supracitados.

O complexo e multifacetado processo de miscigenação no Brasil, ocorrendo antes mesmo do início do processo colonizador, não significa, então, apenas o entrecruzamento das raças branca, negra e índia. Trata-se, mesmo, de um complexo processo de constituição de um psiquismo onde o padrão, tal como foi elaborado na Europa, é inexistente e onde os limites narcísicos são pouco claros, borrados, dificultando a discriminação entre eu e outro e permitindo a justaposição de partes. Isso não quer dizer, entretanto, que não haja eu no psiquismo do brasileiro. Quer dizer, simplesmente, que os limites do eu não se processam de acordo com um padrão de pureza distinguindo-se radicalmente do outro, mas pela justaposição do outro reduzido à parte Europa (BERLINCK; KOLTAI; CANONGIA, 2010).

Na tentativa de explicar essa miscigenação, nos anos 70, retoma-se o estudo da eugenia (cujas bases foram fortalecidas nos anos 30), cuja explicação serviu como argumento para elucidar as diferenças internas, enraizadas na não aceitação principalmente do negro em nossa sociedade (SOUZA, 2013). Percebe-se que para a maioria dos pesquisadores da época, esta mistura de raças era assombrosa, já que em nenhum outro país demonstrava tamanha miscigenação, devendo ser defendida o branqueamento das raças.

Nesta ideologia, destaca-se que as demais raças, principalmente a negra, poderia se tornar melhor pela miscigenação, até alcançar o branqueamento. Assim, a elite brasileira começa a se diferenciar do discurso europeu (que via a miscigenação como uma perda de qualidade) para adquirir corpo próprio, enfatizando que ao invés da perda, ocorreria um ganho para os negros, que passaria a compartilhar características da raça superior, ou seja, a branca.

Essa situação nos leva a pensar sobre a fábula das três raças, explicada por Roberto DaMatta, a qual apresenta os três elementos sociais – branco, negro e indígena – como componentes equivalentes, miscigenado e predisposto à tolerância racial. Esta fábula teria como função integrar, de forma harmônica, a população, contrária a realidade, marcada por intensa desigualdade e racismo. Porém, este mito baseia-se na tentativa de se explicar as mazelas sociais atuais com justificativas do passado, momento este desvalorizado, sendo que apenas o futuro merece a atenção devida.

Acredita-se, contudo, que toda cultura só se sustenta e se fortalece usando como base as suas experiências históricas, sendo estas e as mudanças provocadas por elas que nos permitiram chegar no momento em que hoje estamos. Utiliza-se, assim, das explicações de Baptista (2008), para reforçar que a verdadeira riqueza, ou identidade, dos lugares não está nas suas potencialidades materiais, mas sim na forma como são apropriados, percebidos, desfrutados, amados, e, sobretudo, partilhados. Assim, a identidade pessoal alimenta-se dos laços de enraizamento temporal e estes carecem da vinculação a um ambiente natural, cultural, e relacional – a um território de referência.

Neste sentido, acredita-se, num processo de delimitação, que a identidade de um povo se dá, principalmente, por sua língua e por sua cultura alimentar, sendo que o conjunto de práticas alimentares determinadas ao longo do tempo por uma sociedade passa a identificá-la e muitas vezes, quando enraíza, se torna patrimônio cultural. O ato da alimentação, mais do que biológico, envolve as formas e tecnologias de cultivo, manejo e a coleta do alimento, a escolha, seu armazenamento e formas de preparo e de apresentação, constituindo um processo social e cultural, devendo ser assim estudado e analisado.

Por conseguinte, é essencial considerar a formação histórica de cada espaço, pois foi por meio destes que a cultura alimentar se forma e se atualiza. Reforça-se, assim, que o caráter da miscigenação não será tratado mais pela vertente negativa, mas sim pela vertente positiva, resultando numa riqueza cultural até pouco tempo mal valorizada, explorando o conceito do melting pot, até a discussão atual sobre multiculturalismo.

*Material alterado da publicação de MENDES, B.C; PERROTA, R.G.O Multiculturalismo na Gastronomia Brasileira: a influência dos imigrantes na alimentação”. Saarbrucken: Novas edicações Acadêmicas, 2016.

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REFERÊNCIAS

BERLINCK, M.T. ; KOLTAI, C.; CANONGIA, A.I. Esquizofrenia e miscigenação. Revista Latinoamricana de psicopatia fundamental. IV. N.4, 11-29. 2010.

PINHO, O.A. o efeito do sexo: políticas de raça, gênero e miscigenação. Cadernos Pagu. Jul-dez, 2004. Pp.89-119.

SOUSA, R.O. oliveira Viana e as questões da miscigenação no Brasil: a desconstrução dos discursos e ideais que negavam a contribuição do negro e do indígena em nosso país. VI Jornada Internacional de Políticas Públicas.  20-23 ago. 2013. UFMA – São Luís do Maranhão.


Bruna Mendes

BRUNA MENDES

Mestre em Hospitalidade, bacharel em Turismo e Licenciada em Pedagogia, mas acima de tudo, apaixonada pela cultura, turismo e gastronomia.

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